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"Põe o Barrete e veste o Colete..." - Reportagem no Colete Encarnado
por Miguel Soares
6 de Julho, 2005
O Campino é a razão de ser e o homenageado nas Festas do Colete Encarnado
Vila Franca vive nestes dias o ambiente que a levou ser conhecida como esta parede indica
As esperas de toiros são um dos momentos mais esperados de cada dia
Todas as casas se preparam para os perigos das largadas
A noite da sardinha assada é um ponto alto de intenso convívio
Toda a cidade se põe bonita
A Tertulia dos Forcados de Vila Franca é um dos locais de passagem obrigatória
Mas todas as Tertulias da Cidade se abrem aos visitantes
As corridas na Palha Blanco são essenciais à Festa
As festas passam mas a figura do Campino fica sempre presente

Em Julho, no nosso país, há motivos de sobra para visitar inúmeras localidades espalhadas por todo o território que, com orgulho, organizam as suas festividades com distintos pontos de interesse, mas sempre com o objectivo de mostrar a originalidade das suas culturas, as suas especificidades, o seu património histórico e cultural e valorização da sua identidade local.

Vila Franca de Xira (hoje cidade) é uma das regiões portuguesas que oferece uma das Festas mais emblemáticas do mapa cultural português: As Festas do Colete Encarnado.

Com mais de 70 edições, esta festa popular realiza-se tradicionalmente no primeiro fim-de-semana de Julho e podemos afirmar que é um dos momentos mais altos da vida em comunidade desta região ribeirinha. Durante estes dias, podemos assistir a uma forte participação da população local que, juntamente, com os largos milhares de visitantes, partilham valores comuns, sentidos de pertença e uma forte identificação com a cultura regional desta região à beira Tejo.

Como tal, uma manifestação cultural desta dimensão e que tem como figuras-base o Campino e o Toiro, devem ser motivos de análise. Foi por isso, que a equipa da “Tauromania”, decidiu fazer uma “incursão” pelas ruas de Vila Franca!

Assim, este ano, nos dias 1, 2 e 3 de Julho, Vila Franca vestiu-se de novo com os seus trajes de campino, como forma de homenagear essa figura impar da cultura portuguesa e que tanto diz aos vila-franquenses e aos aficionados em geral. Festa bonita e sincera esta que, presta homenagem ao homem e ao profissional que montado num cavalo, tem como missão reunir os touros bravos, conduzindo-os pela lezíria e que conhece um por um, os toiros da ganadaria.

Passeando nas ruas de Vila franca, as referências ao campino e ao toiro não faltam. As lojas estão cheias de artigos simbólicos: o barrete, os coletes, os cartazes das corridas na Praça de Toiros Palha Blanco… As ruas, já engalanadas, vão sendo preparadas para as largadas de toiros (um dos pontos altos da tauromaquia popular vila-franquense). Estão lá os burladeros, a terra molhada, as janelas e portas com segurança reforçada. À noite, as ruas vão estar apinhadas de gente, de voluntários e toureiros amadores que dão azo à sua imaginação, desafiando o adversário corpulento, que corre pelas ruas da cidade.

Já se nota alguma agitação: grupos de jovens andam de um lado para outro, com calças de ganga, t-shirt branca e um lenço encarnado ao pescoço. Utilizando a terminologia taurina, podemos afirmar que se encontram fardados e andam a conhecer os terrenos do toiro!

Continuo a percorrer as ruas da cidade ribatejana. Já perto da hora de jantar, o aglomerado de visitantes começa a fazer-se notar.

Das notas que tenho, dizem-me que vale a pena visitar as tertúlias taurinas vila-franquenses. Fechadas para única utilização de sócios e amigos durante todo o ano, abrem as suas portas ao público em geral, nas Festas do Colete Encarnado. São dezenas de agrupamentos de aficionados, situados nos diferentes pontos da cidade. Umas mais visíveis e conhecidas que outras, todas com as portas abertas durante a feira. O programa das festas inclui visita guiada às tertúlias, mas o tempo é escasso e a hora da corrida aproxima-se. Desta forma, selecciono as mais conhecidas e peço para entrar. À hora que inicio esta visita, decorrem os tradicionais jantares de sócios e amigos, em mesas compridas. O ambiente é, sem dúvida, de muita festa e animação. A primeira visita é à Tertúlia Lezíria. Passando o burladero de entrada entro e, lá está a mesa comprida, a animação, as iguarias gastronómicas e uma decoração que preenche todas as paredes desta garagem. Cartazes de corridas, muitas fotografias de toureiros, de pegas, cabeças de toiro, enfim, um museu autêntico!

A seguir passo pela “Sevilha Portuguesa”. Mais uma tertúlia, mais uma reunião!

Vou agora em direcção ao centro da cidade, junto à câmara municipal. Passo em frente à renovada estátua do campino. No dia seguinte – Sábado -  há aqui um desfile de campinos que depositam uma coroa de flores no monumento. É, certamente, um momento de forte simbolismo.

Atrás, no celeiro da Patriarcal, durante a tarde foi lançado o livro “Palha, 150 anos de História/ Alquimia da Bravura” de Pierre Dupuy. Um livro que faz uma resenha histórica desta conhecida ganadaria portuguesa com tantas ligações a Vila Franca. No dia seguinte, no mesmo local, mais uma homenagem a uma figura da tauromaquia portuguesa nascido em Vila Franca: o matador Mário Coelho. “Da Prata ao Ouro”, é um livro que conta o trajecto de 50 anos de toureio de Mário Coelho. A Tauromaquia sempre presente no Colete Encarnado, nas suas mais diferentes vertentes.

Motivos de orgulho serão também as janelas da cidade. Por todo o lado se vêm colchas penduradas nas janelas e varandas, que assim, fazem uma espécie de concurso informal da janela mais bonita!    

Durante esta “incursão” tenho a sorte de observar o início do desfile das várias tertúlias da cidade. Vestidos a rigor, lá estão os diferentes grupos representados com uma placa evocativa. De fundo, ouve-se um rancho a tocar, como forma de acompanhar o cortejo. A população observa todo este cerimonial.

Qualquer espaço da cidade é motivo de convívio, sejam nos becos, onde se reúnem tertúlias informais, sejam nas próprias tertúlias. Tudo de copo na mão, claro está!

Agora, há muito mais gente nas ruas e a confusão começa a aumentar. Entre fados e sevilhanas (que se ouvem em colunas de som espalhadas pela cidade) chego ao centro da cidade e à Tertúlia dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira. Espaço bonito, decorado a rigor. Cartazes de corridas históricas e mais recentes em que o grupo entrou, muitas fotografias de pegas rijas, de forcados, das formações mais antigas e recentes do grupo, cabeças de toiro. Ou seja, naquelas paredes encontro um pouco da História do Grupo de Vila Franca. As arcadas em tijolo dão mais “peso” ao local, que está cheio de antigos forcados e muitos amigos do grupo, que entre conversa e petiscos esperam a hora da corrida. No andar de cima, decorre uma reunião dos forcados actuais. Afinal a corrida está mesmo quase a começar! … Na saída está uma imagem de Nossa Senhora, demonstrando assim a forte fé desta rapaziada.
Está na hora de ir para a praça! Está quase na hora da corrida. No caminho de volta, já vejo como vai ser o ambiente vivido nestes três dias, em Vila Franca de Xira. Ruas cheias de gente, muita animação, muita tasquinha para parar. No percurso de regresso, demoro quase o dobro do tempo. As ruas estão já a “abarrotar” de gente.
Chego, finalmente, à praça de toiros Palha Blanco. São 22 horas e a corrida está a começar… Quando a corrida acabar ainda vou assistir à primeira largada de toiros da Feira. Será às 2 horas da manhã.

Assim é. A corrida terminou e saindo da praça volto de novo às ruas da cidade: estão “à pinha!”. Já se vive um ambiente pré-largada. Tensão no ar, mas tudo animado! Oiço dizer que ouve animação de rua, com tunas académicas a tocar, no palco principal. São duas da manhã. Entram os campinos com os toiros pelas ruas de Vila Franca. A partir de agora, os destemidos amadores vão enfrentar os toiros largados. Vê-se de tudo! Muita gente a assistir. Mas são poucos os que arriscam. Há os mais corajosos e aqueles que apenas correm do burladero para as tábuas… mas com o toiro ainda longe. É, sem dúvida, um dos pontos altos das festas, onde se reforça, claramente, a construção da identidade local das gentes e da região.

No programa para além das referidas largadas de toiros, corridas de toiros e o lançamento dos livros, há ainda as corridas de campinos, concurso de Atrelagens de Tradição, a noite da Sardinha Assada (com a tradicional garraiada), homenagem e desfile de campinos e atrelagens (este ano com maior participação de charretes e carros de campo), passagem de toiros nocturna, com archotes e muita animação musical (com actuação de diferentes grupos, fados, sevilhanas, tunas académicas e ranchos folclóricos).

No último dia, o encerramento da Feira conta com a presença de fados e fogo de artifício.

A festa dura, dia e noite fora! Três dias seguidos sem parar! Eu regresso a casa tendo a forte sensação que assisti às diferentes dimensões culturais e identitárias desta festa e desta região. Durante três dias foram potencializados os saberes e a cultura locais e isso é motivo de orgulho para todos nós, num mundo que é cada vez mais global.

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