Sabemos que a Festa de que gostamos está longe de ser consensual. É normal que perante uma cultura cada vez mais urbana, na qual vivemos, isto suceda. No entanto o nosso problema não é lidar com aqueles que não querem assumidamente consumir Tauromaquia. A questão problemática está em perder aqueles que, para seu lazer e entretenimento, até estariam dispostos a consumir Tauromaquia mas que, na avaliação das alternativas, acabam por escolher outras possibilidades.
Andamos distraídos se pensamos que o Futebol e outros desportos, o Cinema, o Teatro e os outros espectáculos, os Parques de Diversões, os Parques Temáticos ou os Centros Comercias, não concorrem com o Espectáculo dos Toiros. Andamos ainda mais distraídos quando não vemos que todos estes concorrentes oferecem aos seus clientes e consumidores experiências muito mais interessantes em termos de comodidade, variedade de oferta e garantia da relação preço/qualidade.
Continuamos a promover os nossos espectáculos em cartazes colados na parede como se fazia no século XIX. Continuamos a oferecer aos nossos clientes um espectáculo com pouco ritmo, demasiado demorado e em infra-estruturas demasiado antiquadas: bancadas de pedra como há 150 anos, sanitários sem condições, incómodos para homens e impossíveis para senhoras; vendemos queijadas de Sintra, distribuídas por vendedores que nos atropelam para passar, servimos bebidas que saem de um barril cheio de gelo, num espaço a que chamam bar, no qual nos amontoamos desordenadamente contra um balcão pegajoso onde passamos todo o intervalo. Continuamos a pretender que os nossos clientes venham até nós com meios próprios e estacionem onde conseguirem, demorando no trânsito o tempo que tiverem de demorar e percorrendo a pé a distância que tiverem de percorrer. Continuamos a vender bilhetes em guichets onde não conseguimos escolher apropriadamente o nosso lugar e onde é impossível qualquer outra forma de pagamento que não seja o dinheiro vivo. Continuamos a praticar preços numa qualquer desmontável de aldeia iguais aos de uma grande noite de futebol europeu ou a 5 noites de cinema com os filmes vencedores dos Óscares. Continuamos a ter figuras que acham que as suas obrigações já se esgotaram e se esquecem de promover a sua imagem e a sua Festa nos locais e nos meios nos quais deviam aparecer… Infelizmente o novelo é muito comprido!
Resta-nos a consolação de apresentarmos um espectáculo que gera emoções únicas. Mas achar que isto é suficiente é passar à Festa uma certidão de óbito.
Neste cenário, há uma de duas reformas a escolher: ou a minha geração reforma a Festa no sentido de a modernizar e dotar de ferramentas, estratégias e acções adequadas aos tempos actuais e às exigências dos clientes de hoje, ou então a minha geração será responsável por assistir, permitir e promover uma lenta eutanásia que acabará por colocar a Festa na reforma, esperando angustiosamente a sua morte.
Mais do que de palavras a Festa nacional precisa de actos, precisa destas tais reformas inadiáveis.
Penso que não serão precisos visionários, nem donos de formulas mágicas, apenas gente capaz de aplicar a um espectáculo, que em si mesmo se mantém espectacular e cheio de emoções, algumas ferramentas que o tornem mais adequado aos nossos dias, tal como fizeram e fazem no Futebol, no Cinema, na Festa de Toiros em Espanha e França e em todos os grandes espectáculos do nosso tempo.
A continuidade da Festa de Toiros em Portugal dependerá, exclusivamente, da capacidade da futura geração de toureiros, ganadeiros, empresários, proprietários das Praças, governantes e aficionados, e da vontade, de todos, em assumirem a responsabilidade conjunta que têm no desenvolvimento, promoção e fortalecimento da Tauromaquia Nacional.
