A festa dos toiros é feita de cores, de sons, de texturas, de cheiros e de gostos. Os cinco sentidos são convocados para a apreensão plena deste fenómeno e de todas as manifestações que dele decorrem. Para além dos que pisam as arenas, também pintores, escultores, músicos, fotógrafos, escritores, estilistas, cozinheiros usaram e usam a Festa que os fascina como fonte de inspiração e raiz da sua criatividade. Passes memoráveis, ferros de antologia, pegas rijas, palmas, sorrisos, valentia, toques, música, pó, cheiro, brindes, colhidas, fracturas, quedas, morte, tudo isto foi já objecto de múltipla observação, interpretação e transmissão.
A história da arte ficaria mais pobre se não existissem estes registos, as narrativas e os detalhes de tantas tardes e noites de toureio. Sem eles, várias páginas ficariam em branco, nomes grandes desapareceriam, imagens marcantes sumiriam e o nosso mundo não seria o mesmo. O sol, o som, a cor, a mistura única que combinada de tantas formas encheu telas vazias passaria ao lado do tempo, para o outro lado da vida. Este conto com tantos pontos, esta crónica semeada de tantas formas é também parte integrante de uma actividade peculiar que merece protecção e respeito.
De facto, se abstrairmos das vozes que comparam a tauromaquia à tortura (!), é quase unânime a compreensão de que a relação homem-cavalo-toiro originou uma manifestação cultural singular que, para além de ser geradora de riqueza e protectora de um património biológico único, encerra a capacidade de motivar e inspirar outros criadores de arte.
Face a tudo isto e ao carácter claramente distintivo e original que ressalta da Corrida à Portuguesa, seria expectável que esta fosse acarinhada e protegida pelos nossos decisores políticos, mais que não seja pela sua capacidade de atrair público e de gerar receita. No entanto, facilmente se constata que a relação do poder com a Festa é, a nível nacional, praticamente inexistente. Se excepcionarmos a aficion individual de alguns titulares de cargos públicos e as comparências episódicas em homenagens a figuras do toureio, parece claro o divórcio da política com o mundo dos toiros. Qualquer observador descomprometido concordará que o Estado assume face à tauromaquia uma relação meramente reguladora, acéptica, não se vislumbrando qualquer desejo de a promover por parte, nomeadamente, dos responsáveis pelas áreas da Cultura e do Turismo.
É sabido que alguns ex-titulares do Ministério da Cultura nutrem mesmo um profundo desprezo pelo fenómeno taurino. Desdém próprio de uma pretensa elite intelectual, desenraizada, que o considera um mero arcaísmo bárbaro condenado ao desaparecimento. Esta atitude contrasta flagrantemente com a dos nossos vizinhos que entendem e potenciam todo o valor identitário e comercial que a Festa encerra. Por isso mesmo é que, em qualquer lado do mundo, falar de toiros é falar de Espanha.
Não deixa de ser curioso que a Corrida à Portuguesa seja posta de lado numa época em que está na ordem do dia a afirmação da nossa especificidade no mundo globalizado e a necessidade de tornar atractiva a “marca Portugal”. Não vá a nossa barbárie macular ânimos mais sensíveis! ... É triste o efeito que a incultura do poder pode ter na defesa de uma actividade intrinsecamente cultora de cultura.
*João Vacas é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa e assessor do deputado Ribeiro e Castro no Parlamento Europeu. Foi forcado do Grupo de Forcados Amadores de Santarém nos anos 90.
